Começando sua Biblioteca Mágica

Começando sua Biblioteca Mágica

Como havíamos prometido, preparamos uma lista sucinta (sim, acredite, está extremamente sucinta!) de indicações de livros de ocultismo para iniciantes. Veja bem: não quer dizer que os livros sejam fáceis de entender, ou simplórios, ou limitados. Só quer dizer que mesmo um iniciante sem qualquer conhecimento prévio tem condição de ler e entender 90% da mensagem que o autor quis transmitir.

Isso posto, uma má notícia: não existe nenhum livro de ocultismo, para iniciantes ou não, que cubra todas as vertentes do ocultismo. O tema é abrangente demais, e nenhum autor de respeito tem autoridade para escrever sobre todos os caminhos. Por isso, separamos as indicações por temas.

A boa notícia é que essa lista não é chapa branca. Mesmo com a parceria entre o Magic(k)ando e a Penumbra Livros, nem todos os livros aqui são da Penumbra, nem são vendidos no site dela. A ideia é proporcionar a você, ouvinte e leitor, uma lista confiável para começar os seus estudos.

Vamos à lista, mas fica uma última recomendação: lembre-se do terceiro item de nosso manifesto:

Não acredite em nada que você lê (ou ouve). Tire suas próprias conclusões. Ninguém é dono da verdade.

Magia da Velha Guarda

Tem gente que prefere começar pelo começo. Entender a forma como a magia era praticada no passado e o dogma ocultista vigente por séculos a fio pode ser útil para alguns, e não tão interessante para outros. Algumas das bases do ocultismo ocidental moderno estão aqui, mas esses livros, embora recomendados, são puramente opcionais se você pretende seguir um caminho mágico mais contemporâneo.

A Clavícula de Salomão

A Clavícula de Salomão é um clássico envolto por mistério. Sua autoria é atribuída ao próprio Rei Salomão, mas hoje sabemos que ele não escreveu livro nenhum. A Clavícula que conhecemos hoje foi provavelmente produzida por volta do século XVII.

Mesmo que não tenha sido escrita pelo Rei em pessoa, a Clavícula ainda contém as principais fórmulas mágicas usadas até hoje, servindo como base para os sistemas da Golden Dawn, Rosa Cruz, entre outros.

Hoje existem várias versões traduzidas em português, e uma não é igual à outra – algo comum quando se trata de livros tão antigos e com tantas versões “originais”. Algumas versões brasileiras contém uma série de feitiços diversos, outras contém a famosa lista dos 72 demônios da Goetia. Podemos citar, entre as edições em produção hoje no Brasil, as das editoras Chave, Pallas e Anúbis.

Qual comprar? Recomendamos que você vá a uma livraria, dê uma olhada nas três, e escolha a que simpatizar mais. Se achar sensacional, compre as outras depois. São diferentes o suficiente entre si para compensar a (re)leitura.

A Clavícula de Salomão, Editora Chave

A Clavícula de Salomão, Editora Pallas

A Clavícula de Salomão, Editora Anúbis

Dogma e Ritual da Alta Magia – Eliphas Levi

Ao contrário do que muitos pensam, o livro mais famoso de Eliphas Levi não mostra uma visão geral do ocultismo do século XIX. Pelo contrário: mostra uma visão pessoal e revolucionária de um homem à frente de seu tempo.

Dogma e Ritual da Alta Magia foi escrito originalmente como dois volumes: o Dogma e o Ritual. A primeira parte explica os princípios fundamentais do ocultismo ocidental, de uma perspectiva bastante judaico-cristã. Eliphas Levi dá uma ideia geral de Cabala, Tarô, astrologia e simbologia oculta, que são uma bela introdução àqueles que estão começando sua jornada pelo oculto.

A segunda parte, o Ritual, não traz feitiços prontos, como um simples grimório. Em vez disso, ele explica como os conceitos do Dogma podem ser usados na magia prática, dando contexto teórico às práticas mágicas comuns de sua época.

Hoje há em português duas edições, das editoras Madras e Pensamento. Desnecessário dizer, a versão da Madras, além de muito mais feia, tem a tradução bem pior. Recomendamos a da Pensamento.

Dogma e Ritual da Alta Magia, de Eliphas Levi, Editora Pensamento

Thelema

Thelema é um tema complicado. Entender Thelema de verdade exige anos de estudo e dedicação, aceitação da Lei, e uma vida mundana de acordo com seus preceitos. Mas se você quer saber se isso é para você ou não, estas são algumas leituras fundamentais.

Liber AL vel Legis, ou O Livro da Lei – Aleister Crowley / Aiwass

Foi aqui que Thelema começou. O Livro da Lei foi supostamente ditado a Aleister Crowley por uma inteligência não humana, identificada como Aiwass, no Cairo, em 1904. O texto se autoproclama como a Lei do Novo Aeon, a nova era na qual o mundo estava prestes a entrar, pouco mais de cem anos atrás.

O Livro da Lei veio acompanhado de instruções claras quanto à sua publicação, que incluem a proibição de se alterar qualquer coisa em seu conteúdo. Considerando tratar-se de um texto recebido por um processo mediúnico, e somando isso à proibição de alterar o conteúdo, O Livro da Lei é às vezes um pouco difícil de entender. Carregado de simbolismo e com uma linguagem por vezes truncada, a própria tradução não é uma tarefa fácil, e sempre gera polêmica entre seus estudiosos. Mas trata-se de um livro curto, que vale a pena ser lido.

O livro não está hoje sendo publicado em português, mas pode ser facilmente encontrado na Internet. Se você consegue ler em inglês, é melhor ler a versão original, para evitar conflitos de tradução. Se preferir o português, fica a dica: se achar algum trecho de uma tradução muito esquisito, leia aquele texto em outra tradução, e veja se melhora um pouco.

Liber AL vel Legis, O Livro da Lei, em inglês, com comentários

Liber AL vel Legis, O Livro da Lei, em português – Tradução de Marisol A. Seabra

Liber AL vel Legis, O Livro da Lei, em português – Tradução de Arnaldo Lucchesi e Jonatas Lacerda

Liber AL vel Legis, O Livro da Lei, em português – Tradução de Frater Ever e Frater Keron-ε

Liber OZ – Aleister Crowley

Se você achou O Livro da Lei muito complicado, temos boas notícias para você: existe um resumo. Bem, não é exatamente um resumo, mas é um compilado, feito pelo próprio Crowley, chamado de Liber OZ.

A ideia do Liber OZ era ser um texto curto, que coubesse em uma página, e que possibilitasse apresentar a Lei de Thelema para qualquer pessoa, por mais simplória que fosse. Por várias vezes, o Liber OZ foi publicado em jornais e periódicos de grande circulação, como uma forma de estabelecer um primeiro contato entre pessoas “comuns” e a Lei de Thelema.

Como é um texto muito curto, de uma só página, você nunca vai encontrar um livro físico do Liber OZ. Mas ele está reproduzido na íntegra em O Renascer da Magia (lâmina 2), e você pode encontrá-lo com certa facilidade pela Internet.

O Renascer da Magia – Kenneth Grant

Thelema pode ser complicado, principalmente a parte da simbologia envolvida. Ler O Livro da Lei sem nenhuma base pode ter dar uma noção geral sobre o tema, mas as fórmulas mágicas ocultas em suas palavras não são reveladas sem as chaves corretas.

É desnecessário dizer que um texto de tamanha complexidade não tem uma única interpretação válida, mas Kenneth Grant, o último discípulo de Aleister Crowley, fez em O Renascer da Magia um belo trabalho interpretativo do Liber AL, tornando-o mais palatável ao público. O livro também mostra um paralelo de Thelema com as doutrinas de Austin Osman Spare e Dion Fortune.

A ressalva é que a visão de Kenneth Grant, embora certamente seja válida, não é unânime entre os Thelemitas. Mas, até aí, nada é unânime entre os Thelemitas.

O Renascer da Magia – Kenneth Grant

Magia do Caos

A Magia do Caos, apesar de não ser novidade (existe desde o final da década de 1970), é a mais relevante inovação do campo da magia. Esse caminho mágico deixa de lado o simbolismo oculto dos sistemas que o antecedem e trata a magia com uma abordagem mais simples, quase científica: a técnica está acima de tudo, o que funciona é valorizado, o que não funciona (ou até atrapalha) é descartado.

Liber Null e Psiconauta

Escrito pelo pioneiro da Magia do Caos, Peter J. Carroll, ainda na década de 1970, Liber Null e Psiconauta circulou durante bastante tempo como um manual interno de práticas da ordem mágica IOT (Iluminados de Thanateros).

Sendo um manual prático, Liber Null e Psiconauta corta toda a baboseira dogmática e parte para a prática. É nele que está o famoso Liber MMM, um roteiro básico de treinamento mágico que desenvolve as competências fundamentais para a magia em poucos meses, mesmo que o praticante não tenha conhecimento prévio. As práticas apresentadas vão aumentando em complexidade, e constituem um roteiro de treinamento simples o suficiente para ser entendido em uma rápida leitura, mas complexo o suficiente para poder basear o trabalho mágico de uma vida inteira.

A segunda parte do livro, o Psiconauta, traz um conjunto de paradigmas mágicos que ajuda a fundamentar a prática previamente apresentada no Liber Null – um caminho completamente oposto ao proposto pelo Dogma e Ritual da Alta Magia, de Eliphas Levi. Duas abordagens conduzindo a dois caminhos distintos.

Liber Null e Psiconauta – Peter J. Carroll

A Ascenção de Prometeu – Robert Anton Wilson

Apesar de não ser essencialmente um livro de magia, e sim de psicologia, A Ascenção de Prometeu é leitura fundamental para quem deseja entender a magia como uma tecnologia de alteração de consciência.

Apesar de não ter inventado o conceito dos oito circuitos da consciência, Robert Anton Wilson (RAW para os íntimos) os apresenta de uma forma muito simples e fácil de entender. Além disso, ele propõe alguns exercícios simples que alteram quase de imediato a percepção de realidade do leitor. É Magia do Caos disfarçada de psicologia. Tudo isso escrito de forma brilhante.

Infelizmente a edição brasileira é publicada pela Editora Madras. Compre por sua conta e risco.

A Ascenção de Prometeu – Robert Anton Wilson

Cabala

A cabala é um tema altamente complexo. Existe Cabala Judaica, Cabala Hermética, Cabala Cristã, Cabala da Madonna, Cabala do Rabino Transante. Todas são diferentes. Não existe uma melhor do que a outra. É preciso conhecer para entender.

Mas a ideia central é que a Cabala serve como uma gramática subjacente para entender as mitologias e simbolismos do ocultismo ocidental. Entender a Cabala é meio caminho andado para entender quase todo o resto, do Tarô à Jornada do Herói. Mesmo que a relação não esteja evidente.

Observação: Cabala não explica tudo, e não é o único caminho para entender o mundo. Não vire fanático, isso é muito feio e bobo.

Iniciação à Cabala – Tova Sender

Existem um milhão de manuais introdutórios à Cabala. Muita gente lembra do Cabala Mística, da Dion Fortune. Que realmente é um livro bom, mas vem muito carregado de cristianismo. Muita gente lembra do Kabbalah Hermética, do Marcelo del Debbio. Que também é um bom livro, mas o tamanho tem uma tendência a assustar o estudante iniciante (é um livro gigante).

Por isso lembramos do ótimo Iniciação à Cabala, da autora brasileira Tova Sender. Com suas meras 117 páginas, o livro consegue de forma sucinta explicar todos os conceitos fundamentais da Cabala (as Sephiroth, a Árvore da Vida, Ain Soph, etc.), um mérito que poucos livros sobre o tema podem clamar. Um excelente ponto de partida.

Iniciação à Cabala – Tova Sender

Promethea

Apesar de ser uma história em quadrinhos, Promethea não é uma história em quadrinhos qualquer. Obra-prima do mago inglês Sir Alan Moore, Promethea é uma viagem lisérgica pelas Sephiroth, recheada de simbolismos ocultos.

A história é toda fundamentada na Cabala, e a protagonista não faz a menor ideia do que está ocorrendo ao seu redor. O leitor é convidado a aprender junto com ela. Além de ser uma história ótima, Promethea é profundamente didática, sem ser chata.

Depois que você estiver conhecendo um pouco mais sobre ocultismo, vale a pena reler Promethea. A quantidade de referências escondidas e easter eggs que você vai encontrar é assustadora.

O único problema de Promethea é que nossos amigos da Editora Panini estão há dois anos enrolando para lançar o segundo volume (a coleção completa é em dois encadernados), então por enquanto só é possível ler a primeira metade da história. Mas vale a pena.

Promethea – Alan Moore, J. H. Williams III e Mick Gray

Tarô

Assim como a Cabala é usada por muita gente para explicar o mundo, o tarô também é visto como uma ferramenta para descrever o universo ao nosso redor. Além, é claro, de ser a ferramenta de adivinhação favorita de muita gente. Entender o Tarô, assim como entender a Cabala, pode ser uma boa forma de entender a estrutura fundamental do universo e o próprio funcionamento da magia.

O Caminho do Tarot – Alejandro Jodorowsky e Marianne Costa

Dentre os inúmeros tarôs que existem por aí, alguns se destacam bastante dos demais. Um deles é o Tarô de Thoth, que transporta para o tarô as bases da doutrina Thelêmica. Outro é o de Raider-Waite, que faz o mesmo com os ensinamentos da Golden Dawn. E há o Tarô de Marselha, um dos mais antigos que sobreviveram até hoje, e talvez o mais famoso em todo o mundo.

Alejandro Jodorowsky é um estudioso do Tarô e devotou muitos anos de sua vida a entender nos mínimos detalhes os símbolos contidos no antigo Tarô de Marselha. O resultado de sua pesquisa é O Caminho do Tarot, no qual ele explica em detalhes cada uma das cartas, possibilitando uma compreensão profunda do tema mesmo para completos leigos.

Além disso, Jodorowsky traz formas práticas de usar o Tarô, seja como ferramenta divinatória, seja como alfabeto para descrever o mundo ao seu redor. Altamente recomendado.

O Caminho do Tarô – Alejandro Jodorowsky e Marianne Costa

Tudo bem, você chegou até aqui. Talvez tenha decidido ler um ou outro desses livros. Mas é importante se lembrar do oitavo ponto do nosso Manifesto:

Se você quer aprender, não adianta ler e escutar. Precisa praticar. Saia da poltrona.

Arte: DocBaghead

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