Frater Optimus e o Último Recurso

Frater Optimus e o Último Recurso

Frater Optimus

Nosso colunista, Frater Optimus, é um mago das antigas que acredita que o seu jeito é sempre o jeito certo. Às vezes suas opiniões são um tanto defasadas e afastadas da realidade de hoje, mas normalmente vale a pena ouvir a voz da experiência, mesmo que seja para discordar.

Na coluna desta semana, Frater Optimus fala sobre o último recurso de quase todos os magistas quando as coisas dão errado: ir correndo para a Umbanda!


Era só o que me faltava. Pensei que isso fosse uma modinha passageira, que fosse passar com o tempo. Mas parece que não. As histórias que tenho escutado por aí indicam que a tendência, na verdade, é piorar. O motivo da minha indignação desta vez é que, até hoje, o último recurso dos magistas de praticamente todas as correntes é o mesmo: recorrer à Umbanda.

Parece piada, mas não é. Sabe aquele mago malvadinho, mestre das artes Qliphóticas Luciferianas das Trevas? É fato conhecido que a maioria dos que seguem esta linha de trabalho, tida como potencialmente perigosa, possuem apenas um conhecimento superficial sobre aquilo com o que estão lidando.  E quando algo de errado acontece (e vai acontecer, mais cedo ou mais tarde), você acha que esse Mago das Trevas consegue resolver seu abacaxi por conta própria?

É claro que não!

E não são só os malvadinhos que se dão mal. Quando você faz magia direito, coisas acontecem. É esperado que alguns aspectos da realidade precisem se acomodar para que resultados se manifestem. E quando digo resultados, não me refiro apenas a alterações objetivas e materialmente observáveis. Quero dizer também as alterações na psicologia e na constituição sutil do magista e de outras pessoas de alguma forma relacionadas a ele e a seus objetivos. E é relativamente comum que estas alterações de aspectos da realidade fujam do controle dos magistas – até mesmo dos mais experientes.

Quando as coisas saem do controle, às vezes é interessante ver aonde tudo isso vai parar. Mas em outras ocasiões é preciso fazer algo a respeito. E o que acontece se o magista não faz ideia do que fazer para resolver algo que ele mesmo começou?

Ele corre para a Umbanda, é claro.

Obviamente, este não é o único curso de ação possível. Na prática, porém, é o que acontece na maioria dos casos. Mas que outros planos de contenção poderiam ser acionados, e por que eles não são postos em prática?

A solução, é evidente, depende muito da natureza do problema. Em linhas gerais, algumas coisas que se poderia aplicar para resolver efeitos colaterais mágicos incluem banimento, exorcismo e purificação, meditação e reflexão, trabalhos de proteção em geral, invocações para buscar respostas inspiradas, evocações para que um terceiro ajude a resolver o problema, contra-ataques nos casos em que outros magistas acabam envolvidos na confusão, entre outros.

Essa minha pequena lista de contramedidas pode parecer bem diversa, mas todas as sugestões que eu mencionei têm três coisas em comum. Primeiro, o magista precisa entender o que está acontecendo de verdade. Ele precisa compreender a verdadeira causa do sintoma que percebeu inicialmente. Segundo, ele precisa decidir o que fazer para lidar com a causa identificada. Terceiro, ele precisa ter confiança e conhecimento para colocar em prática a solução identificada e resolver o problema de uma vez por todas.

A Umbanda faz isso com um braço amarrado nas costas, e até mesmo sem que o consulente seja conhecido na casa. É uma linha extremamente eficaz, e por isso acho que se popularizou tanto como a solução de todos os problemas mágicos. As soluções oferecidas pela Umbanda, por si sós, são geralmente simples. Vêm na forma de banhos, defumações, oferendas, conselhos certeiros e pequenas “missões”. Mas não quer dizer que a Umbanda seja simples. Muito pelo contrário! Identificar o problema e saber como lidar com ele: estes são os verdadeiros pulos do gato, que neste caso acabam se manifestando pela intermediação de inteligências não terrenas. São o resultado da sabedoria profunda das entidades e/ou dos seus médiuns.

Voltemos para nosso hipotético e inconsequente magista das trevas. Depois de fazer suas operações sinistras, da mão esquerda, depois de praticar Goetia sem triângulo, de invocar demônios milenares e não fazer banimento, tudo parece bem. Até que os problemas começam. O mago das trevas pega seu grimório copiado da Internet, encadernado em espiral, e nele não encontra nenhuma magia pronta para resolver seu problema. O próximo passo é consultar seus colegas – todos igualmente incompetentes. Pode até ser que um deles ofereça uma solução, mas possivelmente não a solução correta, e dificilmente o problema se resolve neste ponto. O tempo vai passando e o problema se agrava. Desesperado, o hipotético magista das trevas lança mão de seu último recurso: resignado, com o rabo entre as pernas, vai à Umbanda. Problema resolvido! E da próxima vez que um de seus colegas tiver um problema, qualquer que seja, nosso mago das trevas já saberá qual solução recomendar.

Estou aqui falando de um mago das trevas, que lida cotidianamente com o perigo. Mas isso se aplica a praticantes de praticamente qualquer corrente. Magos herméticos, cerimonialistas, magos do caos que acham que punheta é sinônimo de magia, bruxinhas de internet… a lista é extensa, virtualmente infinita. Todo mundo, na hora que o bicho pega, vai para a Umbanda. Porque não sabe como agir, e porque a Umbanda resolve.

Talvez você, leitor, esteja se perguntando qual é o problema de recorrer à Umbanda, no fim das contas. Quero deixar claro que eu acho louvável a capacidade de identificar a existência de um problema, e mais louvável ainda a humildade de admitir a própria incapacidade de lidar com ele. O que eu acho condenável, pelo outro lado, é se meter constantemente em situações que podem se complicar, e das quais você obviamente não terá condições de sair por conta própria. Repare: não vejo problema em se expor ao perigo, desde que saiba lidar com ele.

Se expor a situações sem ter um plano de contingência é inconsequente, temerário e, por que não dizer, infantil. É comparável ao caso da criança que, animada com sua recém-descoberta capacidade de subir em árvores, chega aos galhos mais altos de uma mangueira e percebe que não faz ideia de como descer dali. Ou do consumista compulsivo, de posse de um novo cartão de crédito, que quando menos percebe se vê enfiado em dívidas que nunca conseguirá pagar.

Essas situações são evitáveis e contornáveis. A criança poderia subir a árvore com cautela, pensando sempre no caminho de volta ao chão. O consumista poderia queimar o cartão de crédito e botar em prática um plano para pagar suas dívidas. Mas essas abordagens exigiriam maturidade e sobriedade; virtudes que estão em falta na maioria dos praticantes de magia da atualidade.

A minha indignação, portanto, não é com o fato de alguém buscar auxílio na Umbanda para resolver seus problemas de ordem mágica. É com o fato de que, entra ano e sai ano, as pessoas continuam repetindo os mesmos erros, e não aprendem a lidar com seus próprios problemas. Você, leitor: crie vergonha na cara. Se você tem um problema hoje, e não faz ideia de como resolver, pode ir na Umbanda. Mas que isso sirva de lição, e que da próxima vez você tenha condições de resolver sozinho. Como diz o ditado, errar é humano… E o resto você já sabe.


Publicado originalmente no site da Penumbra Livros.

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